quinta, 09 de setembro de 2010

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Coisas do Jequitinhonha

LENDA
* O nome Jequitinhonha, que dá nome ao principal rio que banha a região, segundo reza a lenda, originou-se dos índios que habitavam a região: "jequi", armadilha em forma de um "puça" usada para pegar peixe, que também era chamado de onhas. O índio armava o jequi no rio ao entardecer e na manhã seguinte o pai falava para o filho: "vai menino, vai ver se no jequi tem onha". Uma alusão a essa lenda é lembrada nos versos da música “No Jequi tem onha” do poeta Gonzaga Medeiros.
“Conta, canta contador,
Conta a história que eu pedi
Dizem que o Jequi tem onha,
Conta as onhas do jequi”.

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* O título "Vale da Miséria", que ainda hoje é atribuído à região, foi dado ao Vale do Jequitinhonha no ano de 1974 pela ONU. Segundo alguns estudiosos, a situação de pobreza foi acentuada com a implantação de áreas de reflorestamento para a produção de carvão vegetal utilizado nas usinas siderúrgicas. Em meados dos anos 70, o reflorestamento foi apresentado como a solução da miséria do Vale. No entanto, além de não ter melhorado a situação do quadro social e econômico, a atividade provocou um tremendo impacto ambiental, com prejuízos incalculáveis.

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* No ano de 1969 um animado grupo de Folia de Reis, da cidade de Jacinto, foi dançando e cantando até a cidade de Bandeira. O feito que durou só 7 sete dias, por onde passava, por fazendas e comunidades, era uma festa só, e novos seguidores aderiam à caminhada aumentando a multidão.

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* As pastorinhas hoje são raridades em todos os cantos de minas e no Brasil. Salvoa algumas manifestações isoladas que ainda se mantém devido sua à ligação a outras festas tradicionais da comunidade. Por volta da década de 1980, foi registrado no distrito de São Pedro do Jequitinhonha as dificuldades que os grupos enfrentavam para se manterem. Numa tentativa de retomar com o grupo, a comunidade se reuniu e alugaram um filme e programaram um cinema no Centro Comunitário do distrito. O objetivo era levantar recursos para compra de tecidos para confecção de suas vestimentas. Não se sabe se atividade ainda existe no distrito.

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* A atividade de garimpagem, ofício realizado pelo garimpeiro que usava somente picareta, pá e bateia, é hoje atividade rara na região do Vale do Jequitinhonha. No seu apogeu, com a descoberta do ouro e diamante na região, contribuiu para a formação de muitos povoados. Ofício que era transmitido às novas gerações era também o recurso de sobrevivência para muitas famílias que, sem terra, sem lavoura, sem casa, retiravam do subsolo o sustento diário para toda a família.

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* Santa Maria do Salto, uma pequena cidade do Vale do Jequitinhonha, é cercada por sete pedras gigantescas, encantos naturais que provocou provocaram na população a idéia de dar ao município o nome de "curral das sete pedras". Contam ainda que o Padre Francisco Hanuszewicz, quando pároco do município, escalou a mais bonita das pedras, e curiosamente, lá de cima jogou uma "bombinha", numa tentativa de calcular a altura em que se encontrava.

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* As folias, o boi janeiro, as pastorinhas, são as formas mais usadas pelo povo no Vale para celebrar o nascimento doe Menino Jesus. Alguns estudiosos dizem que a palavra "folia" vem de Portugal e era uma dança que o povo gostava e cujo acompanhamento era feito por pandeiros. Já em 1505 o escritor português Gil Vicente fez um peça de teatro, na qual os personagens interpretavam uma "folia". Em muitos outros lugares do mundo existiram e existem "folias".

No Brasil, as folia em geral falam da visita que os Reis Magos fizeram ao Menino Jesus. Existem algumas variações, de acordo com o costume de cada lugar. A Folia começa à meia-noite do dia 24 de dezembro e vai até o dia seis de janeiro. Há também a Folia de São Sebastião, que acontece no dia 20 de janeiro. Alguns grupos de foliões aproveitam e fazem a adoração do Menino Jesus até esse dia. Nas cidades do Vale, é comum a folia acompanhar o boi de janeiro. E geralmente, os foliões cantam na igreja e no cemitério, passando também por outros lugares. O Boi de Janeiro , no Vale do Jequitinhonha, apresenta-se com vários personagens, muitas vezes diferentes de cidade para cidade: Maria Manteiga, Loba, Pai da Mata, João do Calado, Olha-o-boi, Caçador e o próprio Boi, que é o personagem principal dessa manifestação da nossa cultura popular. Os bailes pastoris são realizados depois da Missa do Galo e compreendem as pastoras (ou pastorinhas), o terno e o rancho. São grupos caracteristicamente vestido que desfilam pelas ruas e visitam casas, onde cantam e dançam em torno dos presépios, em homenagem as nascimento de Jesus. Este é um costume de origem afro-portuguesa. Essas comemorações propagam-se por todo o Brasil, especialmente no Nordeste. No Vale, elas são muito comuns. Em São Pedro do Jequitinhonha, por exemplo, as pastorinhas se apresentavam de roupas brancas com faixas vermelhas, onde se lê a palavra "fada". Todas as pastorinhas traziam um candeeiro na mão. À frente do grupo seguia uma estrela iluminada. Os instrumentos mais usados nos bailes pastoris são o ganzá, a sanfona, o violão e o pandeiro. Os grupos são compostos de mulheres e às vezes de homens. Formam dois ranchos ou cordões que recebem o nome conforme a cor das vestimentas.

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* Paulinho Pedra Azul foi o primeiro vencedor do primeiro FESTIVALE (Festival da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha), com a música Ave Cantadeira, realizado no ano de 1980, na cidade de Itaobim.

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* Não se sabe bem porque ganhou forma e se consolidou a interpretação segundo a qual a origem de Araçuaí está ligada à "prostituta" Luciana Teixeira e sua "casa de meninas". Definitivamente, Luciana Teixeira não era prostituta nem dona de bordel. Vejamos a descrição literal do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, quando passou pela região, em 1817, registrada no memorável "Viagem Pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais". "Entre Setuba e Boa Vista da Barra do Calhao, atravessei dois riachos que se lançam no Araçuaí: (...) Pousei na casa de Boa Vista, talvez a mais agradavelmente situada de todas as que até esse momento vira. É construída sobre o cume de uma colina isolada, em baixo da qual deslizam com lentidão as águas límpidas do Araçuaí. (...) Boa Vista era a residência de uma velha mulata chamada Luciana Teixeira. Tendo sabido que eu viajava com passaporte do governo, essa boa mulher cumulou-me de atenções, e, pondo-se quase de joelhos, quis abraçar-me as coxas; mas compreende-se bem que recusei semelhante polidez. Passei em Boa Vista o dia de Pentecostes. Um sacerdote ali chegara, vindo de nove léguas de distância, e todos os colonos da vizinhança se tinham reunido na habitação com os filhos e netos de minha hospedeira, para assistir ao serviço divino. Essa boa gente jantou em casa dela: a mesa foi posta e desfeita várias vezes, e os que, depois disso, acharam não ter comido bastante, jantaram, depois, confusamente. Os habitantes de Minas comem assustadoramente; (...) e os pratos que, servidos cheios, são quase sempre retirados vazios, são a única prova do apetite dos convivas. É verdade que não perdem tempo em discursos inúteis; mal se pronunciam algumas palavras em voz baixa; só se ocupam com o que estão fazendo, e seria para desejar (...) que esse povo mostrasse em seus trabalhos tanta atividade como desenvolve em comer." Convenhamos. Se um sacerdote realizava ali o serviço divino para os filhos e netos e toda a vizinhança de sua hospedeira, "essa boa mulher" não poderia ser uma prostituta. O povoado que deu origem à paróquia (Lei n0 471, de 01/06/1850), à vila com o nome Araçuaí (Lei n0 803 de 03/07/1857), à cidade (Lei 1.780, de 21/09/1871) e à diocese (25/08/1913) somente começou a se formar por volta de 1830.

Informante: JOÃO VALDIR ALVES DE SOUZA, natural de Turmalina, Alto Jequitinhonha. É Bacharel-Licenciado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Educação. É professor de Sociologia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador da história cultural do Vale do Jequitinhonha.



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